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Warum certos octogenários mantêm uma memória tão boa como aos 50.

Pessoa a montar puzzle colorido de cérebro numa mesa com chá e livro, simbolizando aprendizagem e cognição.

Alguns muito idosos guardam nomes, compromissos e histórias com a mesma facilidade de pessoas de meia-idade - ao que tudo indica, o cérebro deles joga com regras próprias.

Quem já se sentou ao lado da própria avó e a ouviu relatar, com nitidez absoluta, uma história de outros tempos, acaba por se perguntar: como é que ela consegue? Enquanto muitas pessoas a partir dos 60 começam a notar pequenas falhas de memória, existe um grupo reduzido de maiores de 80 cujo desempenho cognitivo quase não dá sinais de envelhecimento. Uma investigação recente aponta um possível motivo: nos seus cérebros formam-se muito mais neurónios novos do que nos de outros idosos.

Quem são, afinal, estes “superagers” (os Super-Alt-Jovens)

Na linguagem científica, são conhecidos como “superagers”: pessoas com mais de 80 anos cuja memória, em testes, se aproxima da de indivíduos entre os 50 e os 60 - ou chega mesmo a superá-la. O foco das avaliações é sobretudo a memória episódica, isto é, a capacidade de recordar acontecimentos e situações concretas.

Na Northwestern University, nos Estados Unidos, decorre há mais de duas décadas um programa dedicado a estes casos. Voluntários aceitam avaliações periódicas do desempenho mental e, após a morte, doam o cérebro para investigação. Assim, é possível não só medir como funcionam no dia a dia, como também, mais tarde, analisar directamente o que torna o seu cérebro tão invulgar.

Para o estudo agora divulgado, a equipa liderada pela neurobióloga Orly Lazarov recolheu amostras de tecido do hipocampo, uma região cerebral crucial para a aprendizagem e a memória. Foram comparados cinco grupos:

  • jovens adultos saudáveis
  • pessoas idosas sem problemas de memória aparentes
  • idosos com ligeiro declínio cognitivo
  • doentes com demência de Alzheimer
  • o grupo dos superagers

No total, os investigadores examinaram a informação genética de cerca de 356.000 núcleos celulares individuais, recorrendo a uma técnica moderna que torna cada perfil celular visível, por assim dizer, “ao microscópio dos genes”.

"O olhar para dentro do cérebro mostra: alguns maiores de 80 produzem claramente mais neurónios novos do que outras pessoas da mesma idade."

Mais neurónios novos em idade avançada

No centro da análise esteve um processo que, durante muito tempo, se considerou praticamente encerrado depois de atingirmos a idade adulta: a formação de novos neurónios, ou neurogénese. Este fenómeno ocorre sobretudo no hipocampo.

Nos superagers, a actividade era extraordinariamente elevada. Em comparação com idosos saudáveis do mesmo escalão etário, formavam-se pelo menos o dobro de neurónios novos. Face a pessoas com Alzheimer, a taxa chegava a ser até 2,5 vezes superior.

Dito de outra forma: enquanto muitos cérebros, nesta fase da vida, “afinariam” de forma marcada, o hipocampo dos superagers mantém-se como uma zona de remodelação activa. Surgem novas células, estabelecem ligações e ajudam a preservar o desempenho da memória. O trabalho apresenta, assim, um dos indícios biológicos mais claros de que o cérebro humano pode continuar plástico - isto é, adaptável e capaz de aprender - mesmo após os 80.

A “assinatura de resiliência” no hipocampo: o que a explica?

A equipa não encontrou apenas mais células novas; identificou também um microambiente particular no hipocampo destas pessoas. Os autores descrevem-no como uma espécie de assinatura de resiliência, que envolve vários tipos celulares em simultâneo.

Astrócitos: os aliados discretos nos bastidores

Um dos destaques foram os astrócitos. Estas células de suporte do sistema nervoso fornecem nutrientes, ajudam a eliminar substâncias nocivas e mantêm equilibrado o meio à volta dos neurónios. Nos superagers, os astrócitos apresentavam um padrão de actividade genética claramente diferente do observado em idosos “médios”.

Esse padrão sugere que, nestes cérebros, os astrócitos estão mais orientados para protecção e reparação. Assim, criam condições para que novos neurónios não só apareçam, como também sobrevivam e se integrem de forma funcional nas redes já existentes.

Ligações mais robustas em neurónios-chave

O segundo elemento essencial envolve um conjunto específico de neurónios do hipocampo, designados por especialistas como neurónios CA1. Estes desempenham um papel decisivo quando o cérebro grava novas memórias e quando volta a aceder a recordações antigas.

Nos superagers, os neurónios CA1 exibiam uma integridade sináptica significativamente melhor - em termos simples: as ligações entre células eram mais densas e mais estáveis. É precisamente nessa zona que, em doentes com Alzheimer, muitas estruturas falham cedo. Os novos resultados indicam, portanto, que certos circuitos neurais podem manter-se surpreendentemente bem preservados em algumas pessoas muito idosas.

"Só ter mais células novas não chega - é o ambiente favorável no hipocampo que transforma isso numa memória resistente."

O que isto pode significar para a prevenção da demência

O estudo reacende uma velha questão da neurociência: o cérebro adulto ainda cria neurónios novos ou esse processo termina na infância? Os dados agora apresentados apontam de forma clara para a continuidade da neurogénese e, em determinados indivíduos, para uma actividade especialmente intensa em idade muito avançada.

Do ponto de vista médico, é um sinal encorajador. Se médicas e médicos compreenderem o que mantém a neurogénese activa nos superagers, poderá ser possível tentar activar esses mecanismos em mais pessoas. A meta seria abrandar o declínio mental e adiar o início de uma demência.

A escala do problema é enorme: no mundo, vivem cerca de 55 milhões de pessoas com alguma forma de demência, na maioria dos casos associada ao Alzheimer. As projecções sugerem que, até 2050, este número poderá triplicar se nada de fundamental mudar.

Questões em aberto: causa, consequência - ou as duas?

Apesar das diferenças claras observadas no cérebro, há pontos que continuam por esclarecer. Ainda não se sabe se a elevada taxa de neurogénese é, por si só, a causa directa do desempenho de memória superior. É igualmente possível que seja apenas um marcador visível de um conjunto mais amplo de factores protectores.

Há várias influências plausíveis:

  • Genética: algumas pessoas parecem nascer com um sistema nervoso mais resistente.
  • Estilo de vida: exercício regular, desafios mentais e contacto social são há anos apontados como possíveis protectores do cérebro.
  • Alimentação: uma dieta de perfil mediterrânico, rica em vegetais, peixe e azeite, e pobre em carne processada, é considerada benéfica para o cérebro.
  • Saúde cardiovascular: hipertensão, diabetes e excesso de peso também prejudicam o cérebro, ao piorarem a circulação sanguínea.

O mais provável é que vários destes factores se combinem, criando as condições para que o hipocampo continue a produzir neurónios novos - e, crucialmente, para que os consiga manter.

O que a equipa quer fazer a seguir, na prática

O grupo de Orly Lazarov pretende agora transformar estas observações em estratégias terapêuticas. A ideia é actuar de forma dirigida nos tipos celulares que se mostraram tão activos nos superagers - sobretudo astrócitos e neurónios CA1.

Entre as possibilidades em discussão estão:

  • fármacos capazes de colocar os astrócitos num “modo de protecção”
  • substâncias que estabilizem e promovam o crescimento das ligações sinápticas
  • combinações de medicação, programas de actividade física e treino cognitivo

Ainda assim, passar destes conceitos para a prática demorará anos. Antes disso, modelos animais e pequenos ensaios clínicos terão de demonstrar se a assinatura de resiliência pode ser reproduzida artificialmente - e se o efeito é suficientemente forte para se notar no quotidiano.

O que qualquer pessoa já pode fazer hoje pelo seu cérebro

Mesmo sem terapias de alta tecnologia, há medidas ao alcance de todos para apoiar a própria “contabilidade” de neurónios. Muitas recomendações bem conhecidas parecem actuar, de forma indirecta, precisamente sobre processos que nos superagers estão particularmente activos.

Exemplos apontados pela investigação:

  • Actividade física regular - mesmo caminhar a passo rápido várias vezes por semana melhora a irrigação do hipocampo e parece favorecer a formação de novos neurónios.
  • Aprender algo novo - uma língua estrangeira, um instrumento, jogos complexos: estes desafios obrigam o cérebro a construir novas ligações.
  • Cuidar das relações sociais - manter conversas e contacto frequente não só melhora o bem-estar como também activa muitas regiões cerebrais ao mesmo tempo.
  • Dormir o suficiente - durante a noite, o cérebro organiza experiências, consolida memórias e remove “lixo” molecular.

A isto soma-se o controlo dos factores de risco clássicos: reduzir a tensão arterial, manter o açúcar no sangue sob controlo e evitar fumar. Tudo isso protege os vasos finos do cérebro, dos quais depende o fornecimento adequado ao hipocampo.

Neurogénese, hipocampo, plasticidade - o que significam estes termos?

Muitas destas descobertas podem soar abstractas, mas dizem respeito a capacidades muito concretas do dia a dia. Neurogénese é, simplesmente, a criação de novos neurónios. O hipocampo é a região onde “guardamos” experiências e, mais tarde, as recuperamos.

plasticidade refere-se à capacidade do cérebro para alterar a sua própria estrutura - por exemplo, tornando sinapses mais fortes ou mais fracas, ou criando novas conexões. Aquilo que surpreende nos superagers é, no fundo, um sinal de plasticidade extremamente bem preservada em idade avançada.

O estudo deixa uma mensagem clara: o esquecimento associado à idade não tem de ser um destino inevitável. O cérebro pode renovar-se muito para além da reforma. Até que ponto esse efeito poderá ser reforçado com medicamentos, treino ou mudanças no estilo de vida será uma questão decisiva para a investigação dos próximos anos - e poderá determinar se os muito idosos com memória cristalina continuarão a ser uma excepção ou se se tornarão mais comuns.

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