Cada vez mais pessoas estão a cair numa forma pouco conhecida de risco de demência, que afecta sobretudo quem bebe em excesso - e que, muitas vezes, seria totalmente evitável.
Em França, está a emergir um escândalo silencioso: uma variante específica de demência associada ao álcool tornou-se a principal causa de perdas cognitivas precoces. Muitos dos casos envolvem pessoas entre os 40 e os 60 anos. E o problema não é apenas o álcool em si: o factor decisivo é, frequentemente, um défice simples de vitamina B1 - que em muitos casos poderia ser tratado a tempo.
Demência precoce ligada ao álcool: um risco subestimado
Quando se fala em consumo elevado de álcool, a maioria pensa primeiro em cirrose hepática ou cancro. No entanto, o cérebro sofre tanto ou mais. Estudos de França, Finlândia e Reino Unido apontam para números preocupantes:
- Numa análise francesa com mais de 57.000 casos de demência precoce, cerca de 60 % das ocorrências antes dos 65 anos estavam associadas ao álcool.
- Dados finlandeses indicam que uma perturbação do uso de álcool multiplica o risco de demência precoce - cerca de 5,7 vezes nos homens e 6,1 vezes nas mulheres.
- Segundo a Alzheimer’s Society do Reino Unido, aproximadamente uma em cada oito pessoas com demência de início precoce apresenta alterações cognitivas relacionadas com o álcool - muitas vezes diagnosticadas entre os 40 e os 50 anos.
O espectro vai desde dificuldades de concentração após episódios de consumo excessivo, passando por défices persistentes em consumos prolongados, até uma forma particularmente grave: a síndrome de Korsakoff.
“O álcool pode não só danificar o cérebro - em combinação com défice de vitamina B1, apaga histórias de vida inteiras.”
O que está por trás da síndrome de Korsakoff
A síndrome de Korsakoff corresponde a uma lesão cerebral crónica e, regra geral, irreversível. Quem é afectado não perde apenas memórias: deixa também de conseguir fixar informação nova de forma consistente. Em termos clínicos, fala-se de:
- Amnésia retrógrada: as recordações anteriores ao início da doença desaparecem.
- Amnésia anterógrada: torna-se muito difícil gravar novas informações de modo duradouro.
Para tapar estas falhas sem se aperceberem, muitas pessoas passam a inventar narrativas ou a “preencher” conversas com memórias aparentemente plausíveis, mas incorrectas. Além disso, podem surgir:
- grandes dificuldades de orientação no tempo e no espaço,
- incapacidade de reencontrar trajectos conhecidos,
- instabilidade ao andar e alterações do equilíbrio (ataxia),
- movimentos oculares descontrolados ou visão dupla,
- alterações de comportamento e irritabilidade,
- ausência de consciência da doença (anosognosia).
Muitas vezes, a síndrome de Korsakoff evolui a partir de uma fase aguda inicial - a chamada encefalopatia de Wernicke. Neste ponto, o agravamento pode frequentemente ser travado com uma medida simples: administração de vitamina B1 (tiamina) em doses elevadas.
Vitamina B1 (tiamina) como escudo do cérebro
A vitamina B1, também conhecida como tiamina, é essencial para o metabolismo energético das células nervosas. O organismo não a produz, pelo que depende da ingestão através da alimentação ou de suplementos. Em pessoas saudáveis, 1 a 2 miligramas por dia são suficientes para cobrir as necessidades.
Fontes alimentares ricas em tiamina incluem:
- cereais integrais e arroz integral,
- carne de porco e aves,
- produtos de soja, ervilhas, feijões secos,
- frutos secos,
- cereais enriquecidos, como certos pães, cereais de pequeno-almoço e alimentos para lactentes.
Em pessoas com consumo de álcool muito elevado, este mecanismo falha frequentemente:
- muitas vezes comem pouco ou de forma desequilibrada, porque parte das calorias vem do álcool;
- o álcool reduz a absorção de tiamina no intestino;
- o fígado perde capacidade de armazenar vitamina B1;
- ao mesmo tempo, as necessidades dos tecidos aumentam;
- vómitos e diarreia agravam o défice.
“O ponto dramático: uma vitamina barata e bem tolerada poderia evitar muitas destas lesões cerebrais graves - mas quase não é administrada.”
Porque é que o défice é tantas vezes ignorado
A encefalopatia de Wernicke é considerada uma emergência. Tradicionalmente descreve-se uma “tríade”:
- confusão,
- alterações dos movimentos oculares,
- ataxia (marcha instável).
O problema é que esta combinação completa aparece apenas numa pequena parte dos casos. Muitas pessoas apresentam apenas um ou dois sinais pouco específicos. Na prática, serviços de urgência e medicina geral falham repetidamente este diagnóstico - com consequências devastadoras.
Para melhorar a identificação, sociedades científicas recomendam os chamados critérios de Caine, que avaliam quatro áreas possíveis:
- Défices nutricionais (peso muito baixo, grande perda de peso, malnutrição, vómitos frequentes, dieta extremamente restritiva)
- Alterações dos movimentos oculares (nistagmo, paralisias do olhar, visão dupla)
- Sinais cerebelosos (marcha insegura, tropeções, perturbações do equilíbrio)
- Confusão ou problemas de memória (desorientação, défices marcados de atenção ou de fixação)
Em doentes de risco, bastam dois destes quatro pontos para justificar a administração imediata de tiamina por injecção - sem esperar por análises laboratoriais ou por imagens de ressonância magnética. Em pessoas com alcoolismo conhecido, muitas vezes um único critério já deveria acender o alerta.
Um escândalo silencioso nos hospitais e nos cuidados de saúde
Apesar de existirem recomendações claras, muitas pessoas em serviços de urgência, unidades de tratamento de dependências ou consultas de medicina geral acabam por não receber a injecção de vitamina B1. Profissionais de saúde subestimam o problema ou associam-no apenas a situações extremas de carência em países em desenvolvimento.
O resultado é expressivo: em França, estima-se que entre 60.000 e 100.000 pessoas vivam com alterações cognitivas evitáveis associadas ao álcool ou com síndrome de Korsakoff. Todos os anos surgem centenas de novos casos. Os homens são claramente mais afectados do que as mulheres; a idade média em estudos ronda pouco mais de 60 anos, embora muitos deixem de trabalhar muito antes disso.
Além do impacto pessoal, os custos indirectos são enormes. Dados franceses indicam custos médios hospitalares superiores a 15.000 Euro por doente e por ano, acompanhados de elevada mortalidade e fraca recuperação.
Entre todos os serviços: quando o sistema falha (síndrome de Korsakoff)
Quem tem síndrome de Korsakoff é muitas vezes considerado “novo demais” para a resposta típica de cuidados a idosos, “estável demais” para internamentos psiquiátricos fechados, demasiado desorientado para a ajuda habitual em dependências e demasiado complexo para estruturas de cuidados convencionais. Muitas famílias descrevem anos de peregrinação entre hospitais, serviços sociais e entidades administrativas.
“O problema não é um ‘bocadinho de álcool a mais’, mas uma cadeia de negligência médica, social e política.”
Noutros países existem respostas especializadas em que se combinam cuidados médicos, reabilitação cognitiva e apoio socioeducativo. Nesses modelos, torna-se mais provável estabilizar capacidades ainda preservadas, aliviar a carga dos familiares e, pelo menos para uma parte dos doentes, recuperar algum grau de autonomia.
Quatro alavancas que podem evitar muitas lesões cerebrais
Especialistas apontam um conjunto de medidas capazes de reduzir de forma significativa as demências graves associadas ao álcool:
- Administração consistente de tiamina a todas as pessoas em desabituação alcoólica ou com suspeita de consumo severo - idealmente por via intravenosa ou intramuscular e antes de se administrar glicose.
- Formação alargada para serviços de urgência, médicos de família, equipas de enfermagem e profissionais de medicina das dependências, para reconhecer precocemente sinais de Wernicke e não os confundir com “simples embriaguez”.
- Respostas assistenciais especializadas para pessoas com síndrome de Korsakoff, combinando acompanhamento médico, treino cognitivo e apoio social.
- Integração do tema em programas de prevenção, com mensagens claras em campanhas de literacia sobre dependências: o álcool não afecta apenas o fígado e o coração - pode destruir precocemente a memória.
Porque a glicose pode ser perigosa em doentes de risco
Há um detalhe frequentemente esquecido na prática clínica: administrar uma perfusão de glicose a uma pessoa alcoolodependente e muito subnutrida pode precipitar uma crise neurológica aguda. O consumo de açúcar esgota as últimas reservas de vitamina B1 e o cérebro pode entrar, em poucas horas, numa encefalopatia de Wernicke.
Daí a regra prática: em pessoas em risco, dar sempre primeiro - ou pelo menos em simultâneo - tiamina, e só depois glicose.
O que doentes e familiares podem fazer na prática
Quem bebe muito, ou quem tem um familiar com consumo elevado de álcool, deve levar a sério os seguintes sinais de alerta:
- problemas de memória persistentes,
- confusão, falhas de orientação, “apagões”,
- tropeções frequentes, marcha oscilante,
- perda de peso marcada e involuntária,
- vómitos ou diarreia frequentes,
- tremor ocular, visão dupla.
Perante estes sintomas, é necessária avaliação médica rápida - idealmente numa unidade com experiência em medicina das dependências ou neurologia. Familiares podem perguntar directamente sobre a administração de vitamina B1 e referir explicitamente a existência de consumo elevado de álcool.
Quem pretende reduzir o consumo deve, de preferência, não o fazer sozinho: especialistas em medicina das dependências, estruturas de aconselhamento ou programas de internamento ajudam a tornar a desabituação mais segura e a corrigir carências a tempo.
Comprimidos de vitamina B1 comprados em farmácia não substituem diagnóstico médico, mas podem ser uma ajuda adicional em pessoas de risco com alimentação reduzida - sobretudo se forem acompanhados de trabalho sustentado para diminuir o consumo de álcool.
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