As alergias tornam a vida difícil a milhões de pessoas, primavera após primavera. Um estudo realizado em Paris aponta agora para uma via inesperada: fragmentos de micróbios - isto é, pedaços de vírus e bactérias - parecem “reprogramar” o pulmão para reagir de forma muito mais tranquila ao pólen e a outros irritantes, mantendo esse efeito durante meses.
Quando o sistema imunitário reage em excesso
A asma e as alergias respiratórias estão hoje entre as doenças crónicas mais comuns nos países industrializados. Quem sofre destas condições reage de forma exagerada a substâncias que, em si, são inofensivas, como:
- Pólen de gramíneas, árvores ou ervas
- Ácaros do pó doméstico
- Pêlos e descamação de animais
- Certos fungos (bolores)
O sistema imunitário interpreta estas partículas como invasores perigosos. Liberta mediadores químicos, os vasos sanguíneos dilatam, as mucosas incham e podem surgir tosse e falta de ar. Muitos alérgicos reconhecem este padrão: uma primeira época de pólen, aparentemente “normal”, sensibiliza as vias respiratórias - e, em contactos posteriores, a resposta tende a tornar-se cada vez mais intensa.
"O novo estudo inverte este padrão conhecido: um contacto precoce com fragmentos microbianos pode, ao que tudo indica, proteger o pulmão contra a programação alérgica."
Fragmentos microbianos do Instituto Pasteur: um escudo para o pulmão
A equipa de investigação do Institut Pasteur e do Inserm, em França, partiu de uma pergunta provocadora: será que uma exposição dirigida e controlada do pulmão a componentes microbianos inofensivos consegue prevenir reacções alérgicas futuras?
Para o testar, os cientistas expuseram ratinhos a um “cocktail” composto por fragmentos de vírus e bactérias. Um ponto essencial: estas partículas não eram capazes de infectar o organismo; serviam apenas como estímulo para o sistema de defesa.
Os resultados foram claros:
- Quando os pulmões dos animais eram expostos ao mesmo tempo a um desencadeador de alergia e a esta mistura microbiana, deixavam de reagir de forma alérgica mais tarde.
- O efeito protector manteve-se durante, pelo menos, seis semanas.
- Sem fragmentos microbianos, bastava o primeiro contacto com o alergénio para “treinar” o pulmão para a hipersensibilidade - e, no encontro seguinte, a reacção tornava-se então muito mais forte.
Em termos simples: os fragmentos microbianos impediram que o organismo guardasse a substância inofensiva como um “inimigo”.
Protecção mesmo sem contacto simultâneo com o alergénio
Numa etapa seguinte, a equipa quis perceber o que acontecia se o pulmão contactasse primeiro com os fragmentos microbianos e só meses depois fosse exposto aos alergénios. O resultado surpreendeu: a protecção continuou a verificar-se.
"Uma única pré-tratamento com fragmentos microbianos tornou os ratinhos, durante mais de três meses, em grande medida insensíveis a ataques alérgicos posteriores."
Os investigadores descrevem o fenómeno de forma visual, como se esta “cura microbiana” acalmasse o pulmão. O órgão aprende, por assim dizer: há partículas no ar o tempo todo, mas nem cada grão de pó é uma emergência. Este tipo de “treino de serenidade” das vias respiratórias é visto como um passo decisivo rumo a um medicamento preventivo.
Os protagonistas discretos: fibroblastos em vez de células imunitárias
Um dos aspectos mais interessantes do trabalho é que o efeito protector não parece vir sobretudo das células imunitárias clássicas, mas sim dos fibroblastos. Estas células do tecido conjuntivo ajudam a dar forma à estrutura pulmonar, participam na cicatrização e contribuem para a estabilidade do tecido.
Em alergias, é habitual o foco recair noutros intervenientes, por exemplo:
- Células T auxiliares
- Mastócitos
- Granulócitos eosinófilos
Aqui, porém, observou-se que os fibroblastos respondem aos fragmentos microbianos desligando um gene específico - o gene Ccl11. Este gene tem um papel central no recrutamento de células inflamatórias associadas à alergia para o pulmão. Quando fica bloqueado nos fibroblastos, a reacção em cadeia alérgica é interrompida antes de ganhar força.
Uma “memória” duradoura no tecido
Como consegue o pulmão “lembrar-se” deste estímulo protector durante tanto tempo? A explicação remete para a epigenética - alterações na forma como a informação genética é embalada e regulada, sem mudar a própria sequência do ADN.
"As partículas microbianas desencadeiam uma reprogramação epigenética dos fibroblastos que permanece durante meses - uma espécie de memória do tecido."
Enquanto, após uma infecção, muitas células imunitárias desaparecem ou são substituídas por novas, os fibroblastos que moldam a estrutura mantêm-se no tecido pulmonar a longo prazo. Assim, transportam essa “nota” epigenética e evitam que o gene Ccl11 volte a aumentar a sua actividade quando surgem novos estímulos.
O que isto pode significar para futuras terapias de alergia
Os dados alimentam expectativas em torno de novas estratégias contra asma e febre dos fenos. A lógica difere bastante das abordagens actuais:
| Terapia padrão actual | Novo enfoque com micróbios |
|---|---|
| Alivia os sintomas quando aparecem (por exemplo, anti-histamínicos, sprays de cortisona) | Pretende impedir o aparecimento da alergia através de um “treino” prévio do pulmão |
| Actua, na maioria das vezes, directamente sobre o sistema imunitário | Aponta para células estruturais (fibroblastos) e para a sua actividade genética |
| O efeito frequentemente termina pouco depois de parar o tratamento | A protecção poderá manter-se durante meses ou mais |
Os investigadores falam explicitamente em aplicações profilácticas. Isto poderia traduzir-se, por exemplo, em inalações ou outros tratamentos administrados antes de uma primeira exposição intensa a pólen ou a alergénios de animais domésticos - como em crianças de risco provenientes de famílias com historial relevante.
Do modelo em ratinho à utilização em humanos
Apesar do entusiasmo, a aplicação prática está ainda no início. O estudo actual baseia-se inteiramente em ensaios com ratinhos. Antes de se pensar num medicamento, há vários obstáculos a ultrapassar:
- Segurança: os fragmentos microbianos não podem provocar inflamações descontroladas.
- Dose: é necessário definir a quantidade necessária para obter protecção e a frequência de tratamento.
- Transferibilidade: nem todos os mecanismos observados em animais funcionam de forma idêntica em humanos.
- Efeitos a longo prazo: intervenções epigenéticas não devem causar danos, como interferir com a cicatrização.
Só estudos clínicos com voluntários poderão mostrar se esta abordagem reduz, no dia-a-dia, crises de asma e episódios de febre dos fenos. É plausível que os primeiros testes sejam feitos em adultos com risco alérgico previsível e sob vigilância apertada.
O que quem sofre de alergias já pode retirar deste estudo
Mesmo que uma terapia pronta ainda esteja a anos de distância, o trabalho reforça uma ideia consistente com várias observações das últimas décadas: viver num ambiente totalmente estéril não protege automaticamente contra alergias - e poderá até favorecê-las.
Muitos estudos sugerem que um contacto moderado com microrganismos - por exemplo, ao brincar ao ar livre, no convívio com animais ou em famílias maiores - contribui para equilibrar o sistema imunitário. A nova investigação acrescenta um mecanismo plausível para este efeito, em particular no pulmão.
Isto não significa, de forma alguma, ignorar regras de higiene ou desvalorizar infecções. Mas um quotidiano em que as crianças circulam apenas entre uma casa “sem germes”, o carro e o centro comercial também não parece ser a solução ideal.
Conceitos explicados de forma simples
O que é uma alteração epigenética?
A epigenética descreve ajustes que regulam a actividade dos genes sem alterar a sequência do ADN. Marcas químicas no ADN ou nas proteínas que o organizam determinam se um gene fica “mais alto” ou “mais baixo”. Estas marcas podem surgir por estímulos ambientais, persistir por muito tempo e, em parte, ser transmitidas às células-filhas.
Que papel desempenham os fibroblastos no pulmão?
Os fibroblastos são muitas vezes vistos como os “construtores” do tecido. Produzem tecido conjuntivo rico em colagénio, estabilizam a arquitectura do pulmão e ajudam na reparação após lesões. O novo estudo sugere que fazem mais do que isso: também influenciam o grau com que as células imunitárias migram para o pulmão. Por esse motivo, ganham destaque como alvo potencial de novos medicamentos contra inflamações alérgicas.
Para quem tem alergias, esta linha de investigação pode significar, a longo prazo, que não se trate apenas de atenuar sintomas, mas de travar a própria origem da doença. Até que um tratamento deste tipo chegue à prática clínica, será necessário tempo - mas a ideia de travar a febre dos fenos e a asma através de um tecido pulmonar “treinado” traz uma nova dinâmica à investigação em alergias.
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