O narcisismo tem sido, há muito, apontado como produto da cultura do Instagram, do individualismo ocidental e da lógica “eu, eu, eu” associada à geração do milénio. No entanto, novos dados recolhidos junto de dezenas de milhares de pessoas em vários pontos do mundo contam uma história diferente - e bastante mais inesperada.
O que revelou, de facto, o inquérito a 53 países sobre o narcisismo
A nova análise, divulgada na revista Eu e Identidade, reuniu respostas de mais de 45,000 pessoas em 53 países. Em vez de procurar apenas perturbações de personalidade plenamente estabelecidas, os participantes responderam a perguntas desenhadas para detetar traços narcísicos em sentido amplo.
“Os países com as pontuações mais elevadas de narcisismo não foram os suspeitos do costume, como os Estados Unidos ou a Austrália.”
Em vez disso, entre os países com valores mais altos surgiram:
- Alemanha
- Iraque
- China
- Nepal
- Coreia do Sul
Os Estados Unidos, tantas vezes descritos como a capital da auto-obsessão, ficaram a meio da tabela. Já no extremo inferior, países como a Sérvia, a Irlanda e o Reino Unido reportaram níveis relativamente moderados de traços narcísicos.
Este retrato irregular contraria uma narrativa muito difundida: a ideia de que o narcisismo seria uma exportação puramente ocidental, alimentada pelo consumismo e pela fama nas redes sociais. Os resultados apontam antes para um fenómeno mais amplo e intrincado, em que crescimento económico, hierarquias sociais e normas culturais influenciam a forma - e a intensidade - com que o ego se faz ouvir.
Para lá dos autorretratos: o que os psicólogos entendem por narcisismo
Neste trabalho, “narcisismo” não é sinónimo de perturbação de personalidade narcísica diagnosticável. Em psicologia, é tratado como um contínuo de características presentes, em maior ou menor grau, na maioria das pessoas.
Uma dose razoável de autoconfiança e orgulho nas próprias capacidades pode ser útil: ajuda a assumir riscos, a falar quando é preciso e a procurar promoções. O problema surge quando a grandiosidade, o sentimento de direito a tratamento especial e uma necessidade permanente de validação passam a dominar o quotidiano e as relações.
“O narcisismo é menos um rótulo para ‘pessoas más’ e mais um padrão de como alguns indivíduos lidam com insegurança, estatuto e reconhecimento.”
Duas faces do narcisismo: admiração e rivalidade no narcisismo
O estudo recorreu a um instrumento que divide o narcisismo em duas dimensões principais:
| Dimensão | Características centrais | Impacto social |
|---|---|---|
| Narcisismo de admiração | Procura de elogios, vontade de se destacar, apresentação de uma imagem cuidada | Pode parecer sedutor e confiante; pode prosperar em carreiras competitivas |
| Narcisismo de rivalidade | Desvalorização dos outros, hostilidade, comparação constante | Mais propenso a conflito; pode deteriorar relações e a coesão do grupo |
Em alguns países, surgiram níveis mais altos de narcisismo assente na admiração sem que a rivalidade atingisse valores extremos. Isso sugere que, em certos contextos culturais, ser visível, bem-sucedido e admirado é fortemente incentivado, enquanto a agressividade aberta ou o desprezo público pelos outros é contido por normas sociais.
Quem pontua mais: homens, mulheres, jovens ou mais velhos?
Os padrões entre os 53 países foram surpreendentemente consistentes. Em média, os homens apresentaram pontuações superiores às das mulheres no narcisismo global. Além disso, os jovens adultos indicaram traços narcísicos mais fortes do que as gerações mais velhas.
Estas diferenças mantiveram-se tanto em países ricos como em países mais pobres, e tanto em sociedades frequentemente descritas como individualistas como em sociedades tidas como coletivistas. As expectativas sociais associadas ao género e à idade parecem ter um peso significativo.
“À escala global, a juventude e a masculinidade continuam a ser associadas à procura de estatuto, à autopromoção e à ambição visível.”
Para os mais novos, construir uma identidade implica muitas vezes testar limites, ocupar espaço e competir por reconhecimento. O inquérito indica que este impulso de desenvolvimento se manifesta de forma notavelmente semelhante em cenários culturais e económicos muito distintos.
Porque é que os países ricos tendem a apresentar mais narcisismo
Ao cruzarem os dados psicológicos com indicadores económicos, os investigadores encontraram outro padrão. Países com maior produto interno bruto (PIB) tendem a registar pontuações mais elevadas de narcisismo, sobretudo na componente de admiração.
Em sociedades prósperas, as pessoas movem-se em mercados de trabalho e redes sociais que recompensam a “marca pessoal”. Muitas carreiras dependem de contactos, capacidade de apresentação e resultados individuais visíveis. As redes sociais acabam por transformar a reputação numa espécie de moeda.
“O crescimento económico parece criar mais arenas em que se destacar, vender-se e exibir sucesso compensa.”
Isto não significa que a riqueza produza automaticamente crueldade ou manipulação. O que parece acontecer é um incentivo maior a comportamentos em que o indivíduo sublinha a sua singularidade, valoriza os próprios feitos e se considera merecedor de oportunidades especiais.
As culturas coletivistas não estão imunes
Uma das maiores surpresas veio de países frequentemente classificados como “coletivistas”, onde a lealdade à família, à empresa ou à nação deveria pesar mais do que o orgulho individual. O inquérito mostra que estas sociedades não têm, necessariamente, narcisismo baixo.
Em algumas, as pontuações são elevadas no narcisismo baseado na admiração. A explicação passa pela lógica do estatuto: destacar-se pode continuar a ser valorizado, desde que reforce a reputação do grupo e respeite hierarquias rígidas.
Um estudante de alto desempenho que traz prestígio à escola, ou um líder empresarial que eleva o nome de uma firma familiar, pode ser encorajado a exibir sucesso publicamente. Essa performance de excelência pode servir uma narrativa coletiva, e não apenas uma ambição individual.
A desmontar os clichés simplistas de “Oriente vs. Ocidente”
Durante anos, muitos manuais de psicologia traçaram uma divisão rígida: países ocidentais seriam retratados como individualistas e centrados no ego, enquanto vários países asiáticos ou do Médio Oriente surgiam como modestos e orientados para o grupo. Os novos dados mostram um quadro bem mais complexo.
- Um narcisismo elevado pode surgir em sociedades muito estruturadas, com hierarquias bem definidas.
- Um narcisismo mais baixo pode aparecer em nações ocidentais frequentemente acusadas de autoabsorção.
- Diferenças entre gerações e entre géneros atravessam fronteiras culturais, sugerindo dinâmicas humanas partilhadas.
Os resultados apontam que a cultura molda a forma como o narcisismo é expresso e recompensado, mais do que determina se ele existe ou não.
Como é o narcisismo do dia a dia em diferentes países
No terreno, o narcisismo raramente se apresenta como vilania caricatural. Num ambiente corporativo altamente competitivo na Alemanha ou na Coreia do Sul, o narcisismo focado na admiração pode traduzir-se em criação incessante de rede de contactos, perfis de LinkedIn muito polidos e uma pressão quase constante por promoção.
No Iraque ou no Nepal, onde as redes comunitárias e familiares têm enorme influência, pode manifestar-se através de generosidade pública, liderança visível em iniciativas locais e um cultivo cuidadoso de respeito e prestígio. A motivação de base - ser reconhecido - é semelhante, ainda que o comportamento exterior mude.
No polo mais hostil, o narcisismo de rivalidade pode aparecer como “facadas nas costas” no trabalho, apropriação de méritos ou humilhação subtil de colegas. Estes padrões atravessam fronteiras, mas são filtrados pela tolerância de cada país ao conflito aberto e ao confronto.
Termos-chave que moldam o debate
Dois conceitos surgem com frequência nas conversas sobre narcisismo global e ajudam a explicar perceções erradas:
- Individualismo: tendência cultural para valorizar objetivos pessoais, independência e autoexpressão; muitas vezes associada a países como os Estados Unidos ou a Austrália.
- Coletivismo: tendência para priorizar objetivos do grupo, harmonia social e lealdade à família ou à organização; frequentemente ligada a várias sociedades asiáticas, africanas ou do Médio Oriente.
O inquérito sugere que ambos os modelos podem albergar traços narcísicos fortes. Em culturas individualistas, a autopromoção tende a ser mais explícita. Em culturas coletivistas, pode ser recompensado quem se destaca de modo a honrar o estatuto do grupo.
O que isto implica para famílias, locais de trabalho e políticas públicas
Para os pais, perceber que algum foco em si próprio é normal pode reduzir a ansiedade. Um adolescente com sinais de grandiosidade não é, automaticamente, um futuro abusador narcísico. Ainda assim, ensinar de forma consistente empatia, responsabilidade e o valor da colaboração pode ajudar a direcionar a admiração para longe da rivalidade.
As organizações também podem reforçar estes padrões sem intenção. Sistemas de recompensas que valorizam apenas “estrelas” individuais podem empurrar trabalhadores para a autopromoção e para o conflito. Ao incluir reconhecimento de equipa, funções de mentoria e metas partilhadas, diminui-se o apelo da rivalidade implacável.
“Quando o estatuto e as recompensas dependem inteiramente de autopromoção ruidosa, o narcisismo baseado na rivalidade tende a florescer.”
Para decisores políticos e serviços de saúde mental, o estudo sublinha que os traços narcísicos não estão confinados a determinados “países-problema” ou a uma geração em particular. Formar clínicos apenas com modelos ocidentais pode levar a falhas na identificação de como o narcisismo se manifesta noutros contextos culturais, incluindo formas mais subtis ou socialmente legitimadas.
A seguir: redes sociais, crises e egos em transformação
Os investigadores continuam perante questões importantes. As plataformas de redes sociais atravessam fronteiras e podem intensificar o narcisismo de admiração em todo o lado. Ao mesmo tempo, choques económicos, guerras ou pandemias podem empurrar as pessoas para a solidariedade - ou para uma competição mais dura por recursos escassos.
Estudos futuros deverão observar como os traços narcísicos oscilam durante estes períodos de instabilidade. Uma fase de expansão pode acentuar a autoapresentação exibicionista, à medida que surgem oportunidades. Uma recessão pode amplificar rivalidade e ressentimento quando as pessoas se sentem postas de lado ou humilhadas.
Por agora, a mensagem principal é inequívoca: o narcisismo não é uma excentricidade ocidental nem uma moda passageira geracional. Trata-se de uma estratégia psicológica flexível, que se ajusta às pressões e recompensas de cada sociedade, aparecendo onde estatuto, reconhecimento e autoestima frágil se encontram.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário