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Crise climática agrava dengue: tempestades transformam mosquitos em ameaça.

Jovem sentado junto a uma sarjeta cheia de água, segurando um medidor de profundidade numa rua alagada.

Muitas pessoas na Europa ainda associam a dengue a viagens longínquas aos trópicos. No entanto, os dados mais recentes indicam outra realidade: a doença está a expandir-se rapidamente e o tempo extremo tem um peso muito maior do que se pensava. Um estudo recente realizado no Peru mostra até que ponto a crise climática, as tempestades e as vagas de doença já caminham lado a lado - com implicações que também dizem respeito a países como a Alemanha, a Áustria e a Suíça.

Quando a água fica parada e o ar ferve: dengue em condições ideais

A dengue é transmitida sobretudo por mosquitos das espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus. A infeção manifesta-se, na maioria dos casos, com febre súbita, dores de cabeça, dores musculares e nas articulações, além de erupções cutâneas. Nos quadros mais graves podem ocorrer hemorragias internas e falência circulatória - e, nessas situações, a doença pode ser fatal.

À escala mundial, os números estão a aumentar de forma impressionante. De acordo com o novo estudo, todos os anos adoecem dezenas de milhões de pessoas e, desde o ano 2000, o total de casos notificados multiplicou-se por mais de dez. Para climatólogos e epidemiologistas, não se trata de coincidência, mas sim de um padrão bem definido.

O Peru ilustra esse padrão com especial nitidez: em 2023, um ciclone invulgarmente intenso coincidiu com um forte episódio de El Niño costeiro, atingindo o noroeste do país - uma região normalmente mais seca. Em pouco tempo, caiu ali tanta chuva como seria habitual em muitos meses. Pouco depois, surgiu um surto de dengue cerca de dez vezes maior do que num ano médio.

Onde as inundações deixam grandes poças de água e o calor aquece o ar, os mosquitos da dengue encontram condições ideais - e os vírus propagam-se quase a toda a velocidade pela população.

O mecanismo é simples à primeira vista, mas extremamente perigoso: chuva intensa alaga estradas, pátios e zonas ribeirinhas. As redes de água e de esgotos entram em falha, e as pessoas começam a armazenar água em recipientes abertos. Aparecem poças por todo o lado - em bidões, baldes, valas e depressões do terreno -, criando locais de reprodução perfeitos para mosquitos.

Em seguida entra o calor. As temperaturas elevadas encurtam o ciclo de desenvolvimento do mosquito: os insetos emergem mais depressa, picam com maior frequência e o vírus multiplica-se no seu organismo a um ritmo acelerado. Resultado: aumenta a probabilidade de mais pessoas serem infetadas.

Afinal, quanta responsabilidade teve realmente a tempestade?

A equipa de investigação não quis ficar pela observação “tempestade, depois surto”. A pergunta central foi direta: quantos casos de dengue podem ser atribuídos, de forma concreta, a este episódio de tempo extremo?

Para responder, os cientistas recorreram a um método usado em economia. Construíram um cenário estatístico de “e se…?”: como teria evoluído a dengue nas regiões afetadas se o ciclone não tivesse ocorrido? Com base em dados de saúde, registos meteorológicos e modelos climáticos, calcularam uma realidade alternativa - e compararam-na com os números reais de infeções.

Os resultados são claros: nos distritos mais atingidos, cerca de 60 por cento dos casos registados de dengue foram diretamente atribuídos à combinação de precipitação extrema e temperaturas invulgarmente elevadas. Isto equivale a aproximadamente 22.000 infeções adicionais que, muito provavelmente, não teriam acontecido sem esse padrão meteorológico.

O estudo torna mensuráveis os efeitos da crise climática na saúde: não “talvez”, mas “tantas pessoas adoeceram porque este temporal ocorreu”.

Há ainda outro achado relevante: regiões que também receberam muita chuva, mas permaneceram significativamente mais frescas, não registaram um salto comparável de dengue. Isto sublinha o papel decisivo do binómio humidade + calor. A chuva, por si só, não basta - é a temperatura que transforma a água parada num acelerador da proliferação de mosquitos.

Tempestades como a do Peru tornam-se mais prováveis

O estudo não se limita a olhar para trás; também questiona se o ciclone no Peru foi um “evento do século” raro - ou um prenúncio do que vem aí.

Para isso, especialistas em clima analisaram simulações e compararam a precipitação de março entre 1965 e 2014 com a de um clima pré-industrial. A conclusão: no noroeste do Peru, episódios de chuva extrema como os de 2023 são hoje cerca de 31 por cento mais prováveis do que antes do início das emissões massivas de gases com efeito de estufa.

Quando se junta este aumento de precipitação intensa ao acréscimo das temperaturas, o impacto torna-se ainda mais evidente. A probabilidade de ocorrerem condições climáticas como as que alimentaram o surto de dengue em 2023 quase triplicou.

É aqui que surge a ponte para a América do Norte e para a Europa. Em locais como a Florida, o Texas ou o sul da Europa, os casos de dengue estão a aparecer com maior frequência, por vezes com transmissão local. E, na Europa Central - incluindo partes da Alemanha -, o mosquito-tigre asiático já se estabeleceu, sendo um dos principais vetores do vírus.

Se a chuva intensa e os períodos anormalmente quentes aumentarem, surgirão mais vezes “janelas de mosquitos”: intervalos curtos com condições ideais em que uma infeção importada pode, rapidamente, atingir um número maior de pessoas.

O que autoridades e cidades podem fazer a partir de agora

O estudo não fala apenas para climatólogos; oferece também orientações práticas para ministérios da saúde, municípios e organizações de ajuda. A mensagem central é inequívoca: agir antes de os hospitais ficarem sobrelotados.

Medidas dirigidas após episódios de tempo extremo

Quando as autoridades conseguem identificar que bairros ficam mais expostos depois de cheias e calor, torna-se possível lançar ações preventivas atempadas. Entre elas incluem-se, por exemplo:

  • controlo direcionado de mosquitos em coletores de esgotos, depósitos de água da chuva e massas de água estagnada
  • campanhas de sensibilização em áreas residenciais afetadas, por exemplo sobre a remoção de recipientes com água no exterior
  • vigilância reforçada de casos de dengue em hospitais e consultórios médicos
  • equipas móveis para detetar e eliminar criadouros

Em países onde existe vacinação contra a dengue, acrescenta-se mais um elemento: ofertas de vacinação prioritárias para pessoas em zonas de alto risco ou grupos particularmente vulneráveis, em função da estratégia de vacinação adotada.

Tornar as cidades mais resilientes

A cadeia começa quase sempre com água que, após uma tempestade, fica acumulada onde não devia. Por isso, prevenir dengue implica também investir em infraestruturas. Por exemplo:

  • sistemas de drenagem melhor planeados, capazes de escoar mais depressa a chuva intensa
  • habitações menos suscetíveis a inundações e que reduzam a formação de acumulações de água escondidas
  • abastecimento fiável de água potável, para que as pessoas não tenham de guardar água em recipientes abertos

Os autores do estudo realçam que estes novos cálculos permitem argumentar com mais precisão. Os ministérios da saúde conseguem demonstrar quantas infeções extra resultam de um determinado episódio de tempo extremo - e, assim, justificar por que motivo deve haver financiamento para prevenção e preparação.

Lições para a Europa e para o espaço de língua alemã

Mesmo que o Peru pareça distante, os mecanismos por trás do surto são globais. Isto vale não só para a dengue, mas também para outros agentes patogénicos transmitidos por mosquitos, como a chikungunya ou o vírus Zika. Em qualquer região onde os verões se tornam mais quentes e os episódios de chuva intensa aumentam, o risco sobe.

Já hoje, as autoridades de saúde na Alemanha, na Áustria e na Suíça monitorizam de forma sistemática espécies exóticas de mosquitos e avaliam infeções importadas em viajantes que regressam. Com métodos semelhantes aos usados no estudo do Peru, poderá ser possível, no futuro, perceber mais depressa se um determinado verão ou uma sequência de tempestades está a elevar o risco a nível local.

Para a população, regras simples de comportamento podem fazer diferença. Entre elas:

  • tapar ou esvaziar barris e baldes de recolha de água no jardim
  • não manter pratos de vasos permanentemente cheios de água
  • verificar regularmente caleiras, ralos e claraboias/caixas de luz quanto a água parada
  • instalar redes mosquiteiras nas janelas, sobretudo em regiões com presença confirmada de mosquito-tigre

Quando as alterações climáticas se transformam, de repente, em febre

Muitas pessoas ligam a crise climática sobretudo a ondas de calor, incêndios florestais ou subida do nível do mar. O estudo do Peru evidencia outra consequência, mais silenciosa: uma picada, um pico de febre, uma doença que se pensava existir “noutro lugar”.

Por trás está um princípio simples: o clima desloca as fronteiras em que certos agentes patogénicos prosperam. Locais que antes eram demasiado frios ou secos para a dengue entram, gradualmente, numa faixa em que basta uma única tempestade para a situação se alterar.

Quem conjugar política climática, planeamento urbano e proteção da saúde consegue reduzir significativamente estes riscos. Quanto melhor os especialistas compreenderem a interação entre extremos meteorológicos e infeções, mais direcionadas podem ser as respostas - desde drenagem inteligente e monitorização de mosquitos até estratégias de vacinação e melhor preparação dos hospitais.

A dengue torna-se, assim, um sinal de alerta: a crise climática já chegou há muito à medicina. E cada novo episódio de chuva extrema sobre solo aquecido é uma oportunidade para os mosquitos - ou um motivo para agir cedo.

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